Crédito Corporativo

A armadilha do crédito corporativo: empresas médias enfrentam custo de capital recorde

Por Eduardo Vasconcellos · 25 de julho de 2026 · Atualizado em 25 de julho de 2026

O spread médio dos CRAs emitidos por empresas do agronegócio de médio porte — aquelas com receita entre R$ 500 milhões e R$ 2 bilhões — subiu 180 pontos-base nos últimos doze meses. Para os CFOs dessas companhias, o dilema é claro: captar caro agora ou adiar investimentos e perder competitividade.

A situação revela uma assimetria estrutural no mercado de crédito brasileiro que vai além do ciclo de juros. Empresas grandes conseguem emitir debêntures com spreads relativamente contidos, apoiadas por rating elevado e base de investidores diversificada. As médias, sem acesso fácil ao mercado de capitais, dependem de bancos — que, por sua vez, estão mais seletivos num ambiente de inadimplência corporativa em alta.

O custo real do capital

Quando calculamos o custo efetivo de captação para uma empresa média do agro — somando spread, IOF, custos de estruturação e garantias exigidas — chegamos a taxas que facilmente superam IPCA + 12%. Para um projeto com TIR de 15%, a margem de segurança é mínima.

"Estamos vendo empresas saudáveis adiando expansões porque o custo do capital simplesmente não fecha. Não é problema de crédito — é problema de preço." — CFO de empresa de insumos agrícolas, em conversa com a redação.

O fenômeno não é exclusivo do agro. No varejo, nas construtoras de médio porte e nas empresas de logística, o padrão se repete. A diferença é que no agro a sazonalidade do fluxo de caixa torna a dependência de crédito estruturalmente maior.

O que os bancos dizem

Executivos de crédito corporativo de dois grandes bancos privados, consultados pela redação, reconhecem a situação mas defendem a postura conservadora. "O ciclo de inadimplência corporativa ainda não chegou ao pico. Preferimos ser mais criteriosos agora do que ter que provisionar mais adiante", disse um deles, sem se identificar.

O argumento tem lógica do ponto de vista do banco. O problema é que, do ponto de vista da economia real, a restrição de crédito para empresas médias tem efeito multiplicador negativo — menos investimento, menos emprego, menos crescimento.

Alternativas no horizonte

Algumas empresas estão explorando alternativas. Fundos de crédito privado, que captaram R$ 42 bilhões no primeiro semestre, têm mostrado apetite por operações estruturadas com garantias reais. O custo ainda é alto, mas a flexibilidade dos termos pode compensar em alguns casos. O mercado de FIDCs também voltou ao radar, especialmente para empresas com carteiras de recebíveis de qualidade.

Eduardo Vasconcellos

Editor-chefe

Ex-analista de renda fixa em gestora de São Paulo. Escreve sobre crédito corporativo e estrutura de capital.